Por trás do olhar que
não diz nada
Do riso que dissimula
Do sentimento
profundo
E muitas vezes
declarado
A sensibilidade
Este sou eu?
Não, não sou
Logo ali, mais em
frente
O diabo no corpo
A ferocidade do sexo
As palavras amargas
distorcendo a vida
A argumentação seca
E um humor ácido
A violência dos
gestos e das paixões
Eis que sim
Me encontrou
Sim
Mas esse não sou eu
Racionalidade
O olhar pra baixo pra
ver a vida
Ou o olhar de baixo pra
ter a vida
Livros, cafés, filmes
E toda sorte de
aprendizados
Controle da raiva, do
medo e da dor
Parece tão esperto,
tão sério
Equilibrado
Sim , mas esse não
sou eu
A vontade de viver
a luta diária
Começar de novo para
errar outra vez
E mais uma vez voltar
do fundo do poço
Levantar, correr,
abrir as asas e cair
Parece tão
determinado a chegar lá
Mas esse
Não sou eu
Cabeça baixa, quase
ao chão
Disfarçando a dor com
uma gargalhada sonora
Medo de abrir coração
e boca
Calando o vulcão
Tornando tudo
silêncio
Parece tão triste, se
parece tanto comigo
Mas esse, não sou eu
Então os guardas
Psicanalistas,
curiosos, amigos
E você que amo ainda
que não saibas
Trazem suas perguntas
Respondo-as todas
Com sinceridade
absurda
Ainda que seja logo
morto
Mas esse a que chegas
acreditando ter definido
É apenas o que tu
pensas
Esse
Não sou eu
Então vai mais a
fundo?
Arranca minha língua num
beijo selvagem
Testa meu sexo e
mapeia meu corpo e desejo
Olha nos olhos
buscando a verdade das palavras
Escuta os meus gritos
Zela o sono
E cuida do cadeado de
minha prisão
Mais a fundo então
Mata-me, arranca-me a
vida
Me testa quanto à
ressurreição
Me parte em pedaços
Pega meu coração
ainda quente
Separa as partes
Meu cérebro
Tudo
E não é mais nada
E esse
Ainda não sou eu
Mais que uma
definição
Mas olhe mais de
perto

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